Musical sobre Gonzaguinha tem vigor cênico, a ideologia firme do artista e a marca da Barca dos Corações Partidos

  • 07/10/2026
(Foto: Reprodução)
Cena do musical 'Gonzaguinha É', em cartaz na cidade do Rio de Janeiro (RJ) pela Cia. Barca dos Corações Partidos Marcelo Rodolfo / Divulgação ♫ CRÍTICA DE MUSICAL DE TEATRO Título: “Gonzaguinha É” Dramaturgia: Braulio Tavares e Ana Carbatti Direção artística: Inez Viana Direção musical: Alfredo Del-Penho e Beto Lemos Cotação: ★ ★ ★ 1/2 ♬ É tamanha a grandeza do cancioneiro do compositor Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior (22 de setembro de 1945 – 29 de abril de 1991), o Gonzaguinha, que tem-se a sensação de que a Cia. de teatro Barca dos Corações Partidos tentou encaixar o maior número possível de músicas no roteiro de “Gonzaguinha É”, ainda que algumas composições sejam ouvidas quase como citações no espetáculo em cartaz de quinta-feira a domingo no Teatro Sesc Ginástico, na cidade do Rio de Janeiro (RJ). Musical que abre hoje, quarta-feira, 7 de outubro, a 18ª edição da Festa Internacional de Teatro de Angra (Fita), “Gonzaguinha É” se desvia do formato tradicional do musical biográfico. Há, sim, informações sobre a vida e obra do cantor e compositor carioca, geralmente fornecidas ao espectador através de falas do próprio Gonzaguinha reproduzidas no texto assinado por Braulio Tavares com Ana Carbatti, dramaturga também no posto de diretora assistente. Contudo, sob a direção inventiva de Inez Viana, o musical expõe a ideologia de Gonzaguinha em vez de refazer o percurso do artista de forma cronológica e convencional. E isso faz toda a diferença a favor do espetáculo porque o gênero vem dando sinais de repetição, necessitando ser oxigenado. Com elenco que junta quatro atores pertencentes ao elenco da Barca dos Corações Partidos (Adrén Alves, Alfredo Del-Penho, Beto Lemos e Ricca Barros) com quatro atrizes convidadas para o espetáculo (Ana MaGa, Luiza Loroza, Nívea Magno e Thati Dias), o muslcal “Gonzaguinha É” é sustentado pela força do coletivo. O canto conjunto de músicas como o samba “O que é o que é” (1982) – usado para arrematar a cena de forma contagiante, unindo vozes do palco e da plateia – e o bolero “Começaria tudo outra vez” (1976) se impõem sobre a maioria dos solos. Mas que ninguém espere números moldados para facilitar o coro da plateia. A Barca faz teatro, não karaokê. De toda forma, há – em maior ou menor grau – brilhos individuais no canto do samba-enredo “O homem falou” (1985) por Thati Dias, na lembrança de “Pequena memória para um tempo sem memória” (1980) – espécie de réquiem de Gonzaguinha para a legião dos esquecidos na luta contra a ditadura de 1964 – na voz de Ricca Barros e no dueto em que Ana MaGa e Luiza Loroza ressignificam “Espere por mim, morena” (1976), dando sentido homoafetivo à canção meio toada que batizou álbum lançado pelo cantor há 50 anos. Cena de 'Gonzaguinha É', musical em cartaz de quinta-feira a domingo no Teatro Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro (RJ) Marcelo Rodolfo / Divulgação Musicalmente, sob direção de Alfredo Del-Penho e Beto Lemos, o musical se permite a liberdade de mandar “Recado” (1978) na batida do funk, no canto de Luiza Loroza, mas transita basicamente entre a cadência do samba do Rio de Janeiro (RJ), cidade natal de Gonzaguinha, e a intensidade árida ou festiva da música do Nordeste, região também entranhada na obra do compositor, filho de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), rei do baião. O roteiro musical, aliás, parte do sertão, com “Galope” (1974) composição ouvida na voz de Del-Penho. Muito da força do espetáculo reside no D.N.A. da Barca dos Corações Partidos. O movimento de corpo dos atores é uma das marcas da companhia teatral carioca evidenciada no espetáculo idealizado e produzido por Andréa Alves. Outra é a ausência de uma banda. Os atores / cantores tocam os próprios instrumentos e, da interação do elenco com os instrumentos e com os colegas, o espetáculo extrai um vigor cênico que o redime do fato de por vezes soar longo, mesmo não sendo longo. Sobre todas as coisas, o que impulsiona “Gonzaguinha É” acaba sendo a ideologia entranhada nas letras e no pensamento do compositor. Essa ideologia sustenta e legitima o musical. Gonzaguinha jamais fugiu à luta, tendo enfrentado o sistema em sambas como “Comportamento geral” (1972) – abordado nas vozes de Adren Alves e Ricca Barros – e entrado pelas brechas no campo do adversário, como em outro antológico samba dos anos 1970, “Geraldinos e arquibaldos” (1975), cantado por Nívea Magno em número que expõe a expressividade do trabalho de corpo dos atores da Barca. A propósito, a direção de movimento de Denise Stutz valoriza o espetáculo. O corpo também fala em “Gonzaguinha É”. O expressivo trabalho de corpo do elenco fica evidenciado no musical 'Gonzaguinha É', espetáculo da Cia. Barca dos Corações Partidos Marcelo Rodolfo / Divulgação As músicas também falam por si só. O melodrama conjugal da canção “Grito de alerta” (1979), ouvida em aplaudido solo de Adrén Alves, bate direto no coração do público, assim como “Explode coração” (1978), outro hit infalível confiado à voz de Adrén. A exaltação do povo brasileiro no samba “E vamos à luta” (1980), cantado por Luiza Loroza, contagia. O humanismo repisado pelo compositor em “Caminhos do coração” (1982), solo de Alfredo Del-Penho, ainda enternece. Já o samba “É” (1988), puxado por Ricca Barros, tem potencial para soar mais empolgante em cena. Enfim, o conjunto da obra de Gonzaguinha atravessa o tempo com força pela beleza de boa parte das músicas e pelas ideias propagadas nas letras. Construída com doses precisas de afeto e luta, essa obra é a matéria-prima que dá forma ao atual espetáculo da Barca dos Corações Partidos. Em tempos de incerteza, “Gonzaguinha É” se mostra um espetáculo necessário como esse grande compositor que saiu de cena há 35 anos para ficar na história da música popular do Brasil. Feito por oito atores, o musical 'Gonzaguinha É' se nutre em cena da força do coletivo Marcelo Rodolfo / Divulgação

FONTE: https://g1.globo.com/pop-arte/musica/blog/mauro-ferreira/post/2026/10/07/musical-sobre-gonzaguinha-tem-vigor-cenico-a-ideologia-firme-do-artista-e-a-marca-da-barca-dos-coracoes-partidos.ghtml


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